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8 DE MARÇO, DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Num dia 8 de Março, como hoje, 129 tecelãs perderam brutalmente a vida, quando lutavam pela redução da jornada de trabalho para 10 horas. Aconteceu em Nova lorque, há precisamente 150 anos. Não sabemos hoje o nome dessas mulheres. Conhecemos, sim, o nome de Clara Zektin, que em 1910 fez dessa data um marco na luta das mulheres pela conquista dos seus direitos. Hoje conhecemos também o nome de muitas outras mulheres que pelo mundo se distinguiram no longo caminho percorrido pelas mulheres para conquistarem um estatuto jurídico e social mais justo e igualitário. Mas se esse estatuto pôde em muitos países ser adquirido, foi porque a essa luta se associaram muitos milhões de mulheres, de que não sabemos o nome, nunca vimos o rosto e das quais não rezará a história. É certo que as condições políticas, os movimentos intelectuais, as grandes proclamações de princípios, a acção de vanguarda de pessoas com méritos e capacidades excepcionais, são muito importantes. Mas não chegam para fazer as grandes transformações sociais. Em Portugal lembramos, do tempo da 1 República, a acção de Ana de Castro Osório e de outras mulheres da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Do tempo sombrio e policiado da ditadura, quando o 8 de Março era uma data silenciada, que só podia ser celebrada clandestinamente, recordamos a acção corajosa de, por exemplo, Maria Lamas e Elina Guimarães. São mulheres que temos o dever de lembrar hoje aqui. Mas queremos lembrar também as mulheres anónimas, que na sombra e no silêncio foram mudando a vida no dia a dia, foram travando uma luta constante e muitas vezes incompreendida para sair do estatuto subalterno que as leis e os costumes lhes reservavam, foram dando pequenos passos no sentido de um maior acesso à cidadania. Se hoje, em Portugal, nós, mulheres, temos um estatuto de plena igualdade jurídica e se mesmo em matéria de igualdade de facto não há atropelos escandalosos, devemos perguntar-nos a quem devemos mais. Às grandes figuras que atingiram a ribalta ou, por exemplo, aos milhares de mulheres anónimas que, nos anos 50 e 60 do século passado, perante a saída generalizada dos homens, levados pela emigração ou pela guerra colonial, assumiram na prática a função de ‘chefe de família” que o código civil reservava aos homens, e sozinhas decidiram da sua vida pessoal e familiar, educaram os filhos, geriram o orçamento doméstico, mantiveram as (erras e o gado, administraram os negócios familiares. Creio que de umas e de outras somos igualmente devedoras. Umas e outras lançaram as raízes que a nós, as que tivemos a sorte de vir depois, nos permitiram ter asas.

Lousã, 8 de Março de 2007

Eliana Gersão

 (Membro do Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito de Coimbra)