Caros colegas e amigos

Minhas senhoras e meus senhores

“Mulheres da minha terra!... Gatas Borralheiras com o cérebro vazio, que esperam, sentadas na lareira e com estremecimentos mórbidos, a hipotética aparição do príncipe encantado; criadas graves, que passam a vida com as chaves da despensa e a agulha na mão, sem terem a menor noção de economia doméstica nem de higiene (...); animais de carga ou de reprodução, rodeadas de filhos que não sabem criar nem educar (...). bonecas de luxo, vestidas como as senhoras de Paris e com a inteligência toda absorvida na decifração das modas, incapazes de outro interesse . . .1; pequenos fenómenos absurdos criados pela excepção de uma instrução levemente superior e que, na vacuidade do meio, aparecem como prodigiosos foles cheios de vento, assoprados de vaidade, anormais e infelizes

Pobres mulheres da minha terra! (...)” .

 

Era com estas palavras, tristes e desencantadas, que a conhecida pedagoga da I República, Virgínia de Castro e Almeida, caracterizava a situação das mulheres portuguesas por volta de 1910. Pretendia a autora chamar a atenção para as deficiências do sistema educativo português no que respeitava à instrução feminina e, ao mesmo tempo, criticar a superficialidade dos ensinamentos ministrados, fruto da tradição e do conservadorismo. “Uma menina — dizia-se, ao tempo cria-se à roda das saias”.

As palavras de Virgínia de Castro e Almeida, não podem, no entanto, ser interpretadas à letra, não obstante um certo fundo de verdade, sobretudo no que toca aos altos índices de analfabetismo da população feminina no nosso país. Devem, acima de tudo, ser enquadradas no contexto político e ideológico do momento que então se vivia em Portugal: a transição da Monarquia para a República. Ao tempo, o clericalismo e o regime monárquico eram responsabilizados pelo atraso político e cultural do país, em particular pelo baixo nível da instrução feminina, um dos factores de exclusão e de sujeição das mulheres. Adequava-se aos propósitos republicanos explorar o tema da vitimação da condição feminina e, em particular, o clássico lugar-comum da mulher ignorante e de espírito fraco, politicamente retrógrada e manipulada pelo clero a quem a república viria a libertar de séculos de atraso e da misoginia masculina. Ao tomar de empréstimo as palavras de Virgínia de Castro e Almeida, mas invertendo-lhes o sentido, e ao dar como título a este livro Nem gatas borralheiras, nem bonecas de luxo... As mulheres portuguesas sob o olhar da história (sécs. XIX-XX), pretendi sublinhar a importância da contextualização histórica na desconstrução de imagens que confinam a condição feminina nas acanhadas fronteiras dos discursos políticos e ideológicos. Não esteve na minha intenção contrariar o libelo acusatório da autora. Acima de tudo, pretendi salientar a necessidade de diálogo entre a história das mulheres e a história geral como condição sine qua non para a inteligibilidade do real, tendo ainda a convicção de que a história relacional é aquela que deve constituir o horizonte da investigação histórica contemporânea no domínio específico da história das mulheres e do género. Foram estas as linhas de força que presidiram à elaboração dos artigos que se reúnem neste livro, o qual não constitui, de modo algum, uma obra de fôlego. Colige, apenas e tão-só, breves trechos de um percurso inacabado sobre a busca, a intérmina busca, no sentido de um entendimento das realidades femininas nos séculos XIX e XX. Escrever a história das mulheres, sobretudo do século XIX, é também lidar com sombras, com exclusões, com indícios mais do que com informações concretas e circunstanciadas. Século dos segredos, das escrivaninhas com fundo falso que encerram cartas amarelecidas pelo tempo, o século XIX é, acima de tudo, o século dos silêncios e, desde logo, o silêncio dos documentos, que o historiador tem de tentar fazer falar. Os artigos que integram esta obra foram escritos entre o ano de 2000 e finais de 2005. Reflectem uma parte substantiva do meu itinerário historiográfico no âmbito da história das mulheres, área de estudos que continua a interpelar-me, e, tal como nos primeiros trabalhos, a surpreender-me pelas potencialidades que encerra. 66

Numa primeira parte intitulada “Mu1heres dos campos e das cidades” coligem-se alguns artigos que analisam a intervenção feminina na vida económica e social da sociedade oitocentista e primonvecentista. O grande problema que coloca o lado, a escassez das fontes historiográficas e, por outro lado, a da sua objectividade.

Pode-se dizer, com toda a propriedade, que, no tocante ao feminino, a primeira metade do século XIX, permanece, um “continente quase desconhecido”, o que dificulta o entendimento das mudanças ocorridas depois da Regeneração (1851), em especial após 1870. A partir destas datas multiplicam-se as fontes documentais, incluindo os testemunhos directos, fruto da participação mais activa do sexo feminino na sociedade do seu tempo, alteração que coincide, no tempo, com a consolidação do sistema político constitucional e com o esforço de desenvolvimento económico e de modernização do país.

Seja como for, nesses artigos faço, por um lado, o ponto da situação dos estudos disponíveis sobre a intervenção das mulheres na vida económica e social do seu tempo, assim como analiso dois casos pontuais relativos a mulheres de extractos sociais diferentes: por um lado, as mulheres rurais de Montemor-o-Velho; por outro, faço a análise da fundação de creches no nosso país, as quais foram criadas para acolher, os filhos e as filhas das “classes pobres trabalhadoras”. Aliás, a criação desse tipo de instituições enquadra-se num contexto mais lato sobre a génese do Estado-Providência em Portugal.

Em rigor, as “creches”, também designadas ao tempo por “presépios”, destinavam-se a acolher crianças até aos três anos de idade, exigindo-se, como condição de ingresso, que aquelas fossem baptizadas e vacinadas e que as progenitoras fossem não apenas pobres, mas notoriamente honestas e trabalhadoras, ou que, de acordo com a terminologia do tempo, tivessem bom comportamento e fossem “bem procedidas”. Um dos estudos coligidos nesta obra analisa, pois, a Quermesse da Tapada da Ajuda, realizada no ano de 1878, e que tinha como objectivo angariar fundos para a “Associação das Creches” então criada, em Portugal, com o patrocínio da Rainha D. Maria Pia.

Num segundo grupo, subordinado ao título “Palavras e escritos femininos”, reúnem-se dois artigos. O primeiro intitula-se “Os caminhos da instrução feminina nos séculos XIX e XX” e tem como finalidade traçar as etapas essenciais do acesso das mulheres à instrução, fenómeno que é historicamente recente, com pouco mais de cem anos. Foi, no entanto, uma das principais reivindicações pela qual se bateram homens e mulheres desde meados do século XIX e um dos elementos chave através do qual se forjou a cidadania feminina e a intervenção das mulheres no espaço público.

Nesse artigo analisam-se precisamente alguns desses aspectos, balizados por três etapas essenciais: o reconhecimento do direito da mulher à instrução; as vicissitudes tomadas pelos ensinos primário, secundário, industrial e universitário; e, finalmente, um terceiro aspecto, que foi o de se permitir às mulheres o exercício remunerado dos conhecimentos adquiridos, uma vez que algumas carreiras profissionais estavam vedadas ao sexo feminino, com excepção do magistério primário, na qual a participação feminina! se inicia bastante cedo. No outro artigo que integra esta 2° parte do livro, analisa-se o contributo feminino na imprensa periódica, tomando como objecto de estudo um jornal regional: A Comarca de Arganil, desde a sua fundação, em 1901, até aos finais dos anos oitenta do século XX. O objectivo prioritário foi o de captar o contributo das mulheres para a difusão da mensagem discursiva do jornal ao longo de cerca de um século e, sobretudo, esclarecer como estas inscreveram a sua identidade jornalística nos textos que redigiram. De uma forma geral, o jornalismo feito por mulheres, no século XIX, restringia-se a temáticas femininas ou feministas. Os costumes e a moral do tempo impediam-lhes o acesso ao jornalismo de reportagem, também chamado “de rua”, sob pena de caírem no ridículo ou de serem conotadas com o mundo da prostituição. Será que esta situação se passou com as jornalistas de A Comarca? Quem eram, as mulheres que escreviam regularmente nesse jornal? Que causas defenderam? Que motivos as levavam a fazer de um jornal regional uma tribuna política e um espaço de intervenção literária? Terão contribuído para modificar as mentalidades no que respeita ao papel e ao lugar das mulheres na sociedade? Estas são algumas interrogações a que se procura dar resposta. Ora, no jornal A Comarca de Arganil colaboraram algumas mulheres que desempenharam um papel activo na formulação do pensamento político conservador e na redefinição do lugar das mulheres na sociedade. Durante a República, sem dúvida, mas sobretudo em pleno “Estado Novo”, nas décadas de cinquenta e sessenta. Neste campo, destacou-se Arminda Sanches, tendo o jornal lhe dado oportunidade para fazer ouvir a sua voz, espelhando nos seus artigos o apego à família, o papel formativo da escola primária e o fervor patriótico, típicos das classes médias. Todas as colaboradoras (e foram muitas), no entanto, ajudaram a construir A Comarca de Arganil, inscrevendo a sua identidade nos textos que redigiram, contribuindo à sua maneira para o reconhecimento social das mulheres. O livro completa-se com uma terceira parte intitulada “Questões, métodos e linhas de rumo”, na qual, em dois artigos, faço um balanço dos diversos trabalhos realizados, no nosso país, no âmbito da história das mulheres, desde a década de 1970 até à actualidade. Na verdade, a história das mulheres é uma das áreas de estudo que mais se desenvolveram nos últimos anos em Portugal, tendo trazido para a disciplina histórica novos temas de investigação, novos conceitos e novos horizontes de estudo que têm contribuído para reequacionar parâmetros interpretativos.

É tempo de terminar. Resta-me agradecer à presença amiga e reconfortante de todos quantos me quiseram ouvir e, mais uma vez, agradeço à Sra. Dra. Ana Filomena Amaral, o amável convite que me fez para fazer uma breve apresentação deste livro. Muito obrigada pela atenção.

Prof. Doutora Irene Vaquinhas

Universidade de Coimbra


 

 Virgínia de Castro e Almeida, A Mulher Historia da mulher —A mulher moderna. Educação, Lisboa, Livraria Classica Editora de A. M. Teixeira, 1913, pp. 16-17 (a ortografia foi actualizada).